Ao percorrer os ambientes da CASACOR São Paulo 2026, uma sensação ficou evidente para mim: a arquitetura está redescobrindo o valor das emoções. Em uma época marcada pela hiper conectividade e pelo excesso de estímulos, a mostra deste ano, guiada pelo tema “Mente e Coração”, apresentou casas e ambientes que convidam a desacelerar, sentir e criar conexões mais profundas com os espaços.
E se existe uma tendência que saltou aos olhos nesta edição, foi a aplicação cada vez menos temerosa do uso da cor.
Mas não qualquer cor. O que vi na mostra foram tonalidades intensas, sofisticadas e cheias de significado. Tons de bordô, berinjela, vermelho profundo, âmbar e verdes marcantes, azuis apareceram em diferentes propostas, provando que ambientes coloridos podem ser extremamente elegantes e acolhedores.
Um dos espaços que mais me impactaram foi o de Nildo José. Logo na entrada, a escada helicoidal em tom berinjela se transforma em protagonista do ambiente. O guarda-corpo, na mesma tonalidade, reforça a força visual da peça, criando uma composição quase escultórica. Ao redor dela, uma estante com mais de quatro mil exemplares presta homenagem à brasilidade e ao pai do arquiteto, trazendo uma dimensão afetiva que conversa diretamente com o tema da mostra. É um daqueles ambientes que mostram como arquitetura e memória podem caminhar juntas.
A cor também aparece de forma poética no projeto de Letícia Nannetti. Seus vitrais, inspirados nos tons do âmbar, transformam completamente a percepção do espaço ao longo do dia. Conforme a luz natural atravessa as superfícies, o ambiente muda de atmosfera. Como define a própria arquiteta, trata-se de uma superfície sensível que filtra luz, tempo e percepção.

Se a cor foi uma das protagonistas da mostra, o maximalismo também ganhou espaço. Marcelo Salum apresentou uma interpretação ousada e sofisticada na Casa Brastemp. O ambiente explora a combinação de cores complementares, especialmente vermelho e verde, em uma composição rica em estampas, texturas e camadas visuais. O resultado é vibrante, mas equilibrado. Outro detalhe que chama atenção é que cerca de 90% do mobiliário é autoral, acompanhado por obras de arte produzidas exclusivamente para o espaço, reforçando a valorização da criação brasileira e do design como expressão cultural.
Entre os tons que mais encontrei na mostra, o bordô merece destaque especial. Em diferentes ambientes, a cor apareceu em paredes, tecidos, marcenarias e revestimentos, mostrando sua versatilidade. O espaço desenvolvido pelo Senac é um bom exemplo dessa tendência, explorando diversas nuances da cor para criar ambientes sofisticados, acolhedores e contemporâneos. A mensagem é clara: os neutros continuam importantes, mas as cores profundas estão retomando seu lugar nos projetos.

Outro elemento que observei repetidamente foi a presença de paredes texturizadas e revestidas com tecidos. Mais do que um recurso estético, essas superfícies trazem conforto visual e sensorial, tornando os ambientes mais humanos e acolhedores. Em muitos espaços, a textura substitui o excesso de adornos e passa a ser a verdadeira protagonista.
Da mesma forma, os amadeirados voltaram com força. Porém, diferentemente das tendências dos últimos anos, que privilegiavam madeiras muito claras, desta vez os tons escuros e mais sóbrios dominaram a cena. Painéis, forros e mobiliários valorizavam os veios naturais e criavam atmosferas elegantes, reforçando a sensação de permanência e aconchego.
Essa valorização da madeira apareceu de forma muito interessante na Casa Ecomorada. O projeto chama atenção pela sua estrutura modular vermelha, mas o detalhe mais sofisticado está justamente no acabamento. A pintura especial preserva os veios originais da madeira, permitindo que o material continue visível e mantendo uma conexão orgânica com a paisagem natural. É uma solução que une inovação, sustentabilidade e sensibilidade estética.
Ao final da visita, saí com a impressão de que a principal tendência da CASACOR 2026 não é uma cor específica, um material ou um estilo decorativo. O que realmente se destacou foi a busca por ambientes capazes de despertar sensações.
Mais do que impressionar visualmente, os projetos querem acolher. Querem contar histórias, resgatar memórias e criar experiências.
E talvez essa seja a maior mensagem da mostra deste ano: em um mundo cada vez mais acelerado, a arquitetura está voltando a olhar para aquilo que nos torna humanos.
Tanara Gois (@tanatagois) é designer de interiores, possui master em Neuroarquitetura, é especialista em cores e pesquisadora de tendências. Atua no mercado desde 2010 com consultorias, palestras, pesquisas de tendências, workshops, treinamentos de experiências cromáticas, implementação de estratégias de neuroarquitetura com foco nas cores, para o segmento de arquitetura e design de interiores. Proprietária do escritório de design de interiores Tanara Gois.








