O ponto de encontro da construção

Da experiência à intimidade: o que a CASACOR SP 26 revela sobre o futuro do morar

Na última coluna, escrevi sobre uma Milano Design Week que deslocou o interesse do objeto pronto para o processo, para a experiência e para tudo aquilo que o projeto é capaz de provocar antes mesmo de se transformar em produto. Em São Paulo, esse movimento ganha uma escala mais doméstica e próxima da realidade brasileira: o design avança da experiência para a intimidade.

Em cartaz no Parque da Água Branca até 9 de agosto, a CASACOR São Paulo 2026 reúne 70 ambientes sob o tema “Mente e Coração”, propondo a casa como espaço de reconexão com nós mesmos, com nossos propósitos e com o mundo ao redor. A mensagem é clara: projetar o futuro do morar já não significa apenas antecipar equipamentos, materiais ou configurações espaciais. Significa compreender como os ambientes participam da nossa vida emocional.

A cor, as curvas, os tecidos mais densos e os sofás generosos são a camada mais visível dessa mudança. Isoladamente, porém, não constituem a tendência. Por trás desses recursos formais existe uma transformação mais profunda: a casa começa a deixar de ser cenário de desempenho social para se tornar infraestrutura de afeto, descanso, convivência e regulação emocional.

Gabriel Fernandes — Casa Simonetto - Tributo a Janete Costa
Gabriel Fernandes — Casa Simonetto – Tributo a Janete Costa

O aconchego como resposta, não como estilo

Seria fácil resumir esta edição da CASACOR ao retorno do aconchego. O risco dessa leitura é transformar uma mudança de comportamento em outra etiqueta estética, pronta para ser consumida e substituída na temporada seguinte.

O que se observa na mostra não é uma simples preferência por interiores mais macios. É uma resposta ao excesso de estímulos, à aceleração da rotina e à dificuldade crescente de interromper o fluxo das telas. Formas arredondadas, volumes acolchoados, revestimentos táteis e mobiliário de presença generosa não surgem apenas para embelezar. Eles procuram desacelerar o corpo e qualificar a permanência.

Os sofás drapeados, presentes em diferentes ambientes, são um bom exemplo. Suas dobras retiram rigidez da geometria, aproximam o mobiliário de uma linguagem quase corporal e ampliam a percepção de conforto. Na mostra, essa solução aparece associada a espaços de introspecção e a escolhas concebidas para durar, indicando que o conforto volta a ser entendido como qualidade espacial, não como simples acabamento decorativo.

Talvez o futuro do luxo esteja justamente aí: não em mostrar o quanto uma casa custou, mas em revelar o quanto ela consegue acolher.

Tulio Xenofonte Arquitetos — Loft Milanese
Tulio Xenofonte Arquitetos — Loft Milanese

A sala volta a conversar

Durante décadas, a televisão organizou a sala brasileira. Sofás, poltronas e circulações eram posicionados a partir de uma única direção, criando ambientes destinados principalmente ao entretenimento passivo. Na CASACOR 26, alguns projetos começam a desmontar essa hierarquia por meio de sofás curvos e amplos, assentos dispostos frente a frente, salas rebaixadas e obras de arte ocupando o lugar tradicionalmente reservado à tela.

A mudança é espacial, mas também comportamental. A sala volta a ser desenhada para a conversa, para o encontro e para uma convivência menos mediada por dispositivos.

Essa direção aparece em projetos como Casa Magma Portinari, Living Ritmo Vital, Apartamento Deca, Loft Milanese e Arena do Conhecimento. Em diferentes linguagens, esses espaços retiram a televisão do centro e criam pontos de permanência que favorecem troca, contemplação e presença coletiva.

Não se trata de declarar o fim das telas. Elas continuarão presentes, provavelmente ainda mais integradas e discretas. A transformação está em deixar de projetar a vida doméstica ao redor delas.

Essa leitura encontra ressonância especial no Brasil. Nossa cultura do morar sempre esteve ligada a receber, cozinhar, prolongar conversas e ocupar os ambientes sociais de maneira informal. O que a mostra sugere é uma atualização desse comportamento: menos formalidade, maior flexibilidade e espaços capazes de reunir pessoas sem determinar exatamente como elas devem permanecer ali.

Essa percepção também atravessa as leituras curatoriais que Victor Romansini e eu temos desenvolvido: um ambiente não se torna contemporâneo apenas porque incorpora novas tecnologias ou adota a estética do momento. Ele se torna relevante quando responde às relações que desejamos construir dentro dele.

Eduardo Baldelomar — Coliving Chiquitano
Eduardo Baldelomar — Coliving Chiquitano

Morar menor sem viver menos

O futuro da casa brasileira também passa pela redução das metragens, pelo custo da construção e pela necessidade de utilizar melhor recursos e territórios. A presença de quatro tiny houses na CASACOR São Paulo amplia essa discussão sem tratar a compactação como sinônimo de precariedade.

Distribuídas pelo Parque da Água Branca, as propostas exploram cabanas, pavilhões e minicasas conectadas à natureza, combinando baixo impacto ambiental, eficiência construtiva, tecnologia e sensibilidade arquitetônica. A questão deixa de ser apenas “como fazer caber” e passa a ser “como fazer funcionar, acolher e emocionar em menos espaço”.

Essa mudança tende a ganhar importância nos próximos anos. A arquitetura compacta pode responder a necessidades econômicas, mas também oferecer mobilidade, rapidez construtiva, menor consumo de materiais e maior adaptação a diferentes ciclos de vida.

O desafio brasileiro será impedir que a ideia de morar menor seja usada pelo mercado como justificativa para espaços progressivamente reduzidos. Eficiência não pode significar perda de qualidade. O futuro exigirá projetos compactos, mas também ventilados, iluminados, flexíveis e emocionalmente generosos.

A boa arquitetura não é medida somente em metros quadrados. É medida pela quantidade de vida que consegue acomodar.

Marcelo Salum — Casa Brastemp
Marcelo Salum — Casa Brastemp

Entre a casa e a cidade

A discussão sobre o futuro do morar, no entanto, não termina dentro da unidade habitacional. A escolha do Parque da Água Branca amplia a escala da mostra ao distribuir casas, estúdios, lofts, instalações, jardins e tiny houses em meio à vegetação preservada. A arquitetura passa a ser percebida em relação direta com o paisagismo, os percursos e as áreas de convivência.

O fato de cerca de 40% da mostra poder ser acessado gratuitamente, incluindo jardins, praças e espaços funcionais, reforça essa dimensão pública. O dado parece operacional, mas aponta para uma questão maior: a casa do futuro não poderá ser pensada como uma ilha autossuficiente.

Durante muito tempo, o ideal de morar esteve associado à separação, ao controle e à privatização do conforto. Agora, o debate se desloca para a qualidade das transições entre interior e exterior, casa e bairro, intimidade e coletividade.

Nessa perspectiva, o paisagismo deixa de funcionar como moldura decorativa e passa a atuar como infraestrutura térmica, sensorial e social. As áreas compartilhadas deixam de ser espaços residuais e começam a participar efetivamente da experiência cotidiana. O futuro do morar dependerá tanto do que existe dentro de casa quanto daquilo que encontramos ao atravessar sua porta.

O que a CASACOR projeta para depois de 2026

As mostras de decoração sempre correm o risco de serem lidas como catálogos de soluções passageiras. As tendências mais importantes, no entanto, não são necessariamente as que se repetem em vários ambientes, mas as que revelam mudanças na maneira como desejamos viver.

Vista em conjunto, essa edição da CASACOR projeta uma casa menos organizada pela exibição e mais comprometida com a qualidade da experiência cotidiana. Uma casa que favorece a conversa, acomoda diferentes ritmos de vida, utiliza melhor o espaço e restabelece vínculos com a natureza e com a cidade.

Cor, maximalismo, madeira escura, pedras marcantes e formas arredondadas podem mudar de intensidade nas próximas temporadas. O que tende a permanecer é a busca por ambientes capazes de oferecer proteção sem isolamento, personalidade sem excesso de performance e conforto sem indiferença estética.

Milão mostrou que o design está deixando de ser apenas objeto para se tornar processo e presença. São Paulo acrescenta outra camada a essa conversa: a presença só ganha sentido quando produz vínculo.

Se durante décadas projetamos casas para mostrar como vivíamos, talvez o próximo passo seja projetá-las para nos ajudar a viver melhor. A grande questão do futuro não será apenas quanto de tecnologia conseguiremos colocar dentro de uma casa, mas quanto de humanidade conseguiremos preservar nela.


*Henos Costa é diretor da Agência SPAIK, especialista em branding e conteúdo para o setor de arquitetura, design e arte. Assina a coluna “Tendências e Futuro” no portal Núcleo da Construção.

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