O ponto de encontro da construção

Milano além do objeto: o design como processo, experiência e presença

A temporada 2026 da Semana de Design de Milão transformou a cidade em um grande laboratório sensorial. Em vez de correr de estande em estande apenas para fotografar lançamentos, parei para ver, escutar, observar e tocar o que se fazia ali. O resultado é que as peças, sozinhas, já não contam toda a história. O design mais interessante da temporada estava nos bastidores: nos passos dados até chegar a um protótipo, nos improvisos, nos erros assumidos. Depois de um mês de imersão — e de uma longa estadia pelo sul da Itália, que alimentaram essa percepção —, volto à coluna com uma pergunta essencial: o que acontece com a nossa percepção quando o processo se torna visível?

O projeto como processo: a nova lógica do Fuorisalone

A edição de 2026 marcou uma virada. O tema oficial do Fuorisalone, “Essere Progetto”, deslocou o foco do objeto pronto para a existência do projeto. Marcas grandes e pequenas abriram seus ateliês, revelaram protótipos e deixaram que a narrativa do produto incluísse dúvidas e acertos. Essa transparência tem um motivo: depois de anos de feeds saturados de imagens perfeitas, há um desejo por autenticidade. Ao compartilhar o caminho, os designers mostram que criatividade exige tempo, experimentação e que a mão humana ainda importa. Para nós, que acompanhamos a cena de perto e construímos leituras curadoras, esse movimento reforça a importância de olhar além da forma final.

Essa mudança responde a um cansaço coletivo com a superficialidade de imagens impecáveis. Mostrar apenas a peça pronta, em um ambiente perfeito, já não basta. O valor está em compartilhar o caminho — e isso exige tempo, paciência e densidade cultural. Para quem trabalha com curadoria e narrativa de design, como eu e meu parceiro Victor Romansini, esse é um movimento potente: ele desloca o protagonismo do objeto para o processo criativo, provocando o leitor a enxergar a complexidade por trás do que consome.

Neutra Designer no Palazzo Visconti
Neutra Designer no Palazzo Visconti

Kelly Wearstler no Palazzo Acerbi para a H&M HOME — O triunfo da experiência sensorial

Entre os projetos que exploraram os sentidos, a instalação de Kelly Wearstler para a H&M HOME no Palazzo Acerbi se destacou: ocupando um palácio barroco do século XVII raramente aberto ao público, a designer criou uma sequência de salas que apresentava móveis e objetos de sua colaboração inédita com a marca, compondo um percurso sensorial que dialogava com a arquitetura histórica. Paralelamente, a semana apostou na experiência. Instalações como Serotonin – the chemistry of happiness, de Sara Ricciardi para American Express, trataram luz, som e aromas como materiais de construção. A proposta era provocar reações físicas — e lembrar que a função do design vai além da estética. Lexus, com A‑Un, transformou um ambiente em um espaço de meditação, mostrando que design pode ser cura. Esse foco na percepção se conecta com a ideia de que a casa e os objetos devem cuidar de quem os habita. Depois de anos hiperconectados, queremos tocar, ouvir e sentir algo que vá além da tela.

Da esquerda para a direita: Nilufar Grand Hotel, Kelly Wearstler no Palazzo Acerbi para a H&M HOME
Da esquerda para a direita: Nilufar Grand Hotel · Kelly Wearstler no Palazzo Acerbi para a H&M HOME

Processos abertos, narrativas potentes

O que une essas tendências é a valorização de narrativas abertas. Tanto no processo quanto na experiência sensorial, o design deixa de se apoiar em segredos e se constrói como uma conversa com o público. Expor matéria‑prima, ensaios, erros e sensações é assumir que o valor de um projeto está no conhecimento e no repertório que ele carrega, não apenas no objeto final. Em vez de replicar releases de lançamento, podemos contar as histórias por trás das peças, os dilemas éticos dos materiais, a origem das técnicas, as emoções despertadas. E, ao fazer isso, devolvemos ao leitor uma visão mais generosa do design como cultura, não apenas como consumo.

Um olhar curatorial em movimento

Ao longo da semana em Milão, muitas conversas com o Victor confirmaram essa sensação de transição. “O processo, quando torna-se visível, humaniza o design e nos aproxima de quem cria. É como se pudéssemos tocar o tempo e o gesto que gerou a peça”, observou ele em uma das visitas à Brera Design Week. Essa perspectiva reforça a ideia de que, cada vez mais, o valor não está em ter algo único, mas em entender como e por que aquilo foi feito.

Da esquerda para a direita: Keep Your Bubble por Lousy, Nilufar La Casa Magica, Kelly Wearstler no Palazzo Acerbi para a H&M HOME
Da esquerda para a direita: “Keep Your Bubble” por Lousy · Nilufar La Casa Magica · Kelly Wearstler no Palazzo Acerbi para a H&M HOME

Conexões além de Milão

Depois da MDW, continuei pelo país e percebi que a relação entre design e território é parte essencial dessa conversa. Em cada lugar, seja pela tradição do artesanato, pela gastronomia ou pelo cuidado com o patrimônio, o tempo aparece como ingrediente de tudo o que é feito. Essa noção de temporalidade que ultrapassa os calendários de feiras é uma lição que precisamos trazer para o Brasil: valorizar processos demorados, aceitar imperfeições e reconhecer o papel do contexto na criação. Trazer essa sensibilidade para o Brasil é um desafio, mas também uma oportunidade: entender que nosso papel, como profissionais e consumidores, é exigir transparência, valorizar o conhecimento local e construir experiências que façam sentido para a nossa cultura.

De volta à coluna

Depois desse mês intenso, retorno à coluna com a certeza de que o design do futuro é sobre processos e presenças, não apenas o objeto. Este texto inaugura essa nova fase da coluna e abre caminho para outras discussões que virão nas próximas semanas: vamos falar sobre o crescimento do design colecionável, sobre a diplomacia cultural dos pavilhões internacionais, sobre a invisibilidade da tecnologia e sobre como o Brasil pode se posicionar nesse cenário. A viagem acabou; a jornada de observar e traduzir as tendências continua.

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