Se você ainda acredita que tendência é apenas sobre estética, a Haus Decor Show 2026 deixou um recado muito claro: o design de interiores entrou, de vez, em uma nova fase mais estratégica, mais sensorial e, principalmente, mais conectada com identidade.
Ao caminhar pelos corredores da feira, o que percebi não foi uma repetição de estilos ou uma busca pelo “belo universal”. Pelo contrário. Existe um movimento consistente de valorização daquilo que é autêntico, local e carregado de significado. E, nesse contexto, a brasilidade deixou de ser um detalhe pontual para se tornar protagonista nos projetos.

Materiais naturais como palha, cerâmica, fibras e madeira apareceram com força, mas não de forma caricata ou literal. Eles surgem reinterpretados, com um olhar contemporâneo que equilibra sofisticação e origem. É como se o design brasileiro finalmente tivesse assumido sua própria linguagem sem precisar se apoiar em referências externas para validar sua estética.
Outro ponto que chama atenção é a forma como as texturas ganharam protagonismo. Superfícies mais orgânicas, acabamentos menos uniformes e volumetrias que criam profundidade mostram que o olhar já não é suficiente para sustentar a experiência do espaço. O tato passa a ser parte fundamental da percepção, ampliando a sensação de acolhimento e, mais do que isso, aumentando o valor percebido do ambiente. Não se trata apenas de estética, mas de construção de experiência.

A cor, por sua vez, aparece de maneira mais ousada e intencional. O uso do color drenching, técnica que envolve o ambiente quase por completo em uma única cor surge com força, mas com uma abordagem muito mais conectada ao território brasileiro. Tons terrosos, variações de verdes e azuis criam atmosferas imersivas, que vão além da composição visual e passam a atuar diretamente nas sensações e emoções de quem ocupa o espaço.

A iluminação acompanha esse movimento de resgate e autenticidade. As luminárias deixam de ser apenas elementos técnicos para se tornarem peças expressivas dentro do projeto. Materiais como palha e cerâmica reforçam uma luz mais difusa e acolhedora, contribuindo para a construção de atmosferas mais sensoriais. A luz, nesse cenário, não apenas ilumina, ela comunica, acolhe e direciona a experiência.
No mobiliário, a madeira aparece como protagonista absoluta, evidenciando veios, texturas e imperfeições naturais e a composição com tecidos envolvendo texturas, padronagens e cores. Há uma clara valorização do essencial bem-feito, com peças que priorizam matéria-prima, durabilidade e identidade. É um afastamento do excesso e uma aproximação do que é verdadeiro, alinhado a um consumidor cada vez mais consciente e atento à origem e ao significado das escolhas.

Diante de tudo isso, talvez o maior insight da feira seja a redefinição do próprio conceito de luxo. O que antes era associado ao excesso e à ostentação, agora se desloca para o campo da narrativa e da autenticidade. O novo luxo está na história que o espaço conta, na coerência das escolhas e na capacidade de gerar conexão emocional.
A Haus Decor Show 2026 não apresentou apenas tendências passageiras, mas um direcionamento claro para o futuro do design: mais identidade, mais sensorialidade e mais intenção. Para os profissionais da área, isso representa um convite, ou melhor, uma exigência de aprofundamento. Não basta mais escolher o que é bonito. É preciso entender o que faz sentido, o que comunica e, principalmente, o que transforma a experiência de quem vive aquele espaço.

Porque, no fim, o design que permanece não é o que impressiona à primeira vista, mas o que se sustenta naquilo que faz sentir.
*Tanara Gois (@tanatagois) é designer de interiores, possui master em Neuroarquitetura, é especialista em cores e pesquisadora de tendências. Atua no mercado desde 2010 com consultorias, palestras, pesquisas de tendências, workshops, treinamentos de experiências cromáticas, implementação de estratégias de neuroarquitetura com foco nas cores, para o segmento de arquitetura e design de interiores. Proprietária do escritório de design de interiores Tanara Gois.







