Na Milano Design Week 2026, uma das conversas mais interessantes não deve acontecer apenas entre móveis, luminárias ou grandes instalações. Ela está surgindo em um campo mais profundo: o da autoria, da sensibilidade e da forma como o design quer ser percebido em um mundo cada vez mais mediado por imagens e automações. De um lado, o Prada Frames 2026, curado pela Formafantasma, escolheu como tema “In Sight” para discutir justamente a cultura da imagem, a erosão das fronteiras entre o que é produzido por humanos e por máquinas, e os custos políticos, sociais e ambientais da produção visual contemporânea. O simpósio acontece de 19 a 21 de abril de 2026, durante o calendário da Semana de Design de Milão, e se apresenta, mais uma vez, como um espaço voltado a ideias — não a produtos.
Do outro lado dessa mesma cidade, no circuito do Fuorisalone, a mostra brasileira “ia – Inteligência Artesanal”, apresentada por Tropicalistic e Neia Paz no Brera Design District, propõe uma resposta quase simbólica a esse cenário: reafirmar o valor da mão, da matéria, da imperfeição e do repertório cultural como forças insubstituíveis do design contemporâneo. A exposição, em cartaz de 20 a 26 de abril, investiga a relação entre material, gesto e identidade cultural, reunindo designers e marcas de várias regiões do Brasil em uma leitura que posiciona o país como território criativo vivo, onde tradição e inovação coexistem.
Distrito de Brera – Arquivo Agência Spaik
O mais interessante é que essas duas agendas não são opostas de maneira simplista. Não se trata de uma guerra ingênua entre tecnologia e artesanato, como se fosse preciso escolher entre futuro ou tradição. A questão real é outra: que tipo de inteligência queremos valorizar na cultura do projeto daqui para frente? No caso do Prada Frames, o debate parte do entendimento de que a imagem hoje deixou de ser apenas representação e passou a operar como força cultural, política e material, moldada por economias de atenção, infraestrutura digital, extração de recursos, armazenamento de dados e trabalho invisível. Já em “Inteligência Artesanal”, a resposta vem pela defesa de um design que nasce do corpo, do território e da experiência sensível com a matéria. (Prada)
Essa é uma disputa simbólica poderosa porque toca exatamente no ponto mais delicado do nosso tempo: a diferença entre gerar conteúdo e gerar sentido. A automação pode acelerar processos, multiplicar possibilidades e até expandir repertórios visuais. Mas ela também tende a empurrar o mercado para uma perigosa homogeneização estética, em que tudo parece tecnicamente impecável e, ao mesmo tempo, emocionalmente previsível.

VFX e Motion do artista visual At4ci com Henos Costa e Victor Romansini – Arquivo Agência Spaik
“Existe uma diferença importante entre imagem e presença. A imagem pode ser reproduzida com enorme eficiência; a presença, não. E é justamente aí que o design autoral volta a ganhar força”, pontua Victor Romansini, arquiteto e curador parceiro nas leituras que desenvolvemos juntos em diferentes semanas de design ao redor do mundo.
A própria descrição oficial da mostra brasileira no Fuorisalone fala em um contexto crescentemente marcado por automação e padronização dos processos criativos, capaz de produzir objetos semelhantes e uma estética próxima da homogeneidade. Essa leitura, vinda do circuito internacional, é muito reveladora.
Do meu ponto de vista, como alguém que atua com direção criativa, leitura de tendências e construção de linguagem para marcas, espaços e narrativas, esse embate vai muito além do design de produto. Ele já impacta a arquitetura, os interiores, o branding e até a comunicação visual do setor. Porque o problema não é apenas “usar IA” ou “não usar IA”. O problema é quando o processo perde espessura cultural, quando a técnica deixa de servir a uma visão e passa apenas a reproduzir fórmulas visualmente eficientes. É aqui que o know-how técnico volta a ser decisivo: entender materialidade, proporção, função, contexto, cadeia produtiva e repertório simbólico continua sendo o que separa o projeto autoral da simples aparência de projeto.
Milão parece compreender isso com precisão em 2026. Não por acaso, o próprio Brera Design Week adotou neste ano o tema “Essere Progetto” — “ser projeto” — como convite para olhar o design não apenas como resultado formal ou produto final, mas como processo cultural, atitude e responsabilidade na construção de relações entre pessoas, lugares e comunidades. É uma formulação extremamente contemporânea, porque desloca o debate do objeto para a inteligência que o sustenta. (Fuorisalone.it)
“Flamingo Estate Bathhouse” – Agência Spaik
Talvez essa seja a grande síntese da temporada: o futuro não está em substituir a sensibilidade humana, mas em entender o que nela é realmente insubstituível. Em um momento em que a imagem pode ser gerada em segundos, o gesto passa a valer mais. Em um mercado que pode escalar a linguagem com facilidade, a identidade se torna ainda mais rara. E, num cenário em que a automação promete velocidade, o design de verdade volta a se distinguir pela densidade do pensamento, pela intimidade com a matéria e pela capacidade de produzir presença — não apenas impacto.
No fim, a pergunta que Milão nos devolve é menos tecnológica do que cultural: o que ainda precisa ser humano para que o design continue sendo relevante? A resposta, ao que tudo indica, não está apenas nos algoritmos nem apenas no artesanato. Ela está na capacidade de articular técnica, repertório, sensibilidade e intenção. E isso, felizmente, continua sendo uma forma de inteligência que nenhuma máquina consegue imitar por completo.







