Todos os anos, o Salone del Mobile transforma Milão no epicentro do pensamento criativo global. E este ano não foi diferente, foi mais profundo. A grandiosidade do evento realmente impressiona não apenas pelo tamanho, mas pelo impacto: mais de 300 mil visitantes, centenas de marcas expositoras e uma cidade inteira mobilizada entre pavilhões e distritos criativos, do Rho Fiera ao Fuorisalone. Não se trata apenas de uma feira. Milão é um termômetro do presente e, sobretudo, um ensaio do futuro. *Por Matheus Gervásio

O que se percebe com clareza nesta edição é uma mudança de postura. Se em outros anos o design flertava com o espetáculo e o efêmero, agora eu vejo que há um retorno ao essencial. A estética não desaparece, ela amadurece. O que mais me chamou atenção foi a consolidação de uma arquitetura e de um design mais conscientes, orientados pela longevidade. Menos modismo, mais permanência.

Materiais naturais, processos produtivos responsáveis e soluções que priorizam o ciclo de vida dos produtos ganharam protagonismo. A forma deixa de ser só uma protagonista isolada e passa a ser consequência de decisões mais amplas, sejam elas ambientais, sociais e funcionais. O objeto não precisa mais gritar para existir. Ele precisa fazer sentido.

Outro ponto marcante foi a integração dos espaços. Ambientes mais fluidos, que dissolvem limites entre funções e estimulam novas formas de habitar. A casa contemporânea não é mais compartimentada, ela é contínua, adaptável. Essa tendência aparece tanto no mobiliário quanto na arquitetura, reforçando uma ideia de vida mais conectada e menos fragmentada.

Entre as principais leituras apontadas por veículos internacionais e nacionais de arquitetura e design, destacam-se o avanço do design circular, o uso inteligente da tecnologia (sem protagonismo excessivo) e a valorização do artesanal como contraponto à produção em massa. Há também uma clara busca por identidade, peças que carregam história, origem e propósito.

Mas há um aspecto que, para mim, talvez seja o mais valioso de toda essa experiência: o encontro. A Semana de Design de Milão é, acima de tudo, um espaço de conexão. É onde ideias se cruzam, onde surgem novas parcerias, onde marcas e profissionais constroem caminhos juntos. O networking aqui é realmente estratégico, humano e transformador.

Visitar uma feira internacional como essa é, inevitavelmente, um exercício de repertório. É treinar o olhar para além do óbvio, expandir referências e questionar certezas. Sem dúvidas, voltamos diferentes. Mais atentos, mais críticos e, principalmente, mais abertos.

No fim, o Salone del Mobile 2026 nos lembra de algo essencial: o bom design não é aquele que impressiona no primeiro olhar, mas aquele que permanece. Que acompanha o tempo, que se adapta, que respeita. Em um mundo tão acelerado, talvez o maior luxo seja justamente aquilo que dura.
*Matheus Gervásio (@matheusgervasioarq) é arquiteto, urbanista e administrador de empresas formado pela Universidade FUMEC/MG. Com experiência no mercado financeiro, hoje se destaca como arquiteto, empresário e criador de conteúdo digital. Apaixonado por arquitetura e inovação, está sempre conectado às tendências de feiras e negócios do setor.







