De volta a Semana de Design de Paris, a atmosfera da cidade parecia traduzir o próprio tema da temporada: regenerar.
Galerias, estúdios e showrooms pulsavam como organismos vivos, e o design se afirmava, mais do que nunca, como uma força de reconexão.
A PDW 25 ultrapassou o papel de vitrine e se consolidou como um espaço de reflexão sobre como criamos, produzimos e nos relacionamos com o mundo material.
O momento foi especialmente simbólico: este é o Ano do Brasil na França, marco que celebra dois séculos de laços comerciais e culturais entre os países.
E, em meio a essa efervescência, o diálogo entre o savoir-faire francês e a criatividade brasileira ganhou contornos inéditos.
Foi possível perceber um design mais consciente, sensorial, narrativo e que fala sobre tempo, memória e presença.
Regenerar é o novo verbo do design
O tema central da edição — “Regeneration” — não ficou apenas no discurso.
Ele se materializou em cada detalhe: do uso inteligente de materiais reciclados à reinvenção de técnicas tradicionais.
Projetos como o Knot Stool, do Studio Yann Gandon & Maxime Sauce, exploraram o reaproveitamento com sofisticação estrutural, dispensando colas e pregos.
Já o designer Olivier Requier apresentou Fauda, uma instalação que ressignifica estruturas metálicas como metáforas de resistência e reconstrução.
O que antes era visto como estética sustentável agora se transforma em filosofia de criação e o design passa a ser ato político, ecológico e emocional, e não mais apenas ornamental.
Entre arte e função: o triunfo do híbrido
A fronteira entre arte e funcionalidade pareceu dissolver-se de vez nesta edição.
O design francês, conhecido pela precisão formal, agora dialoga com o gesto artístico.
No Studio Chloé Nègre e Laclaux, o mobiliário ganha status de escultura, enquanto o Studioparisien apresentou peças inspiradas nas curvas do corpo humano, provocando uma sensualidade tátil e visual.
Essa estética híbrida também ecoou em designers convidados de outras nacionalidades, inclusive brasileiros que apresentaram criações com alma artesanal e linguagem contemporânea.
Forma e emoção se fundem em uma ponte afetiva entre o experimentalismo europeu e o calor inventivo latino-americano.
Superfícies que contam histórias
Outra tendência reafirmada foi o valor narrativo da matéria.
Tecidos, pedras e metais deixaram de ser coadjuvantes e passaram a atuar como contadores de histórias.
A maison Lelièvre Paris destacou a coleção Contrée Sauvage, com texturas que evocam paisagens áridas e poéticas naturais.
Enquanto isso, os estúdios emergentes propuseram combinações entre pigmentos minerais, tramas naturais e acabamentos oxidados, apontam à imperfeição e ao gesto humano que a produz.
Essas superfícies sensoriais, muitas vezes inspiradas em referências tropicais e sul-americanas, evocam a ideia de que o design também pode ser memória — e que o tempo, longe de ser um inimigo, torna-se um aliado estético.
Olhar Curatorial
Durante a cobertura especial da SPAIK em Paris, ao lado do arquiteto e curador Victor Romansini, as impressões se transformaram em conteúdo e análise, com um olhar a dois sobre o design que anuncia o futuro.
“O que mais me marcou nesta edição foi o deslocamento da função para o afeto.
Paris não apresentou apenas uma nova leva de tendências, mas revelou uma mudança de tom no próprio modo de criar.
Há uma delicadeza emergente em curso, em que o design deixa de ser apenas sobre forma e passa a falar sobre tempo, sobre vínculo e sobre o gesto humano que dá origem a cada matéria.
É como se cada peça respirasse, convidando o olhar a desacelerar e o corpo a sentir.”
— Victor Romansini, arquiteto e curador do Studio Roma
Essa percepção sintetiza o espírito da temporada: o design que se reconecta com o humano, que substitui a pressa pela presença e transforma estética em emoção tangível.
Cobrir a Semana de Design de Paris em um ano tão simbólico foi testemunhar o nascimento de um novo paradigma: o design como força regeneradora do planeta, das relações e das emoções.
Se o passado dos 200 anos de parceria entre Brasil e França foi marcado pelo comércio e pela diplomacia, o futuro promete ser moldado pela criação compartilhada, onde o design se torna idioma universal.
Paris, com seu eterno charme e olhar voltado ao amanhã, reafirmou: o futuro do design é humano, colaborativo e sensorial. E o Brasil está no centro dessa conversa.









